A prisão de Eike Batista e a "Bondade dos Bons”

BAUMAN E PERDA DA SENSIBILIDADE DA MODERNIDADE LÍQUIDA

*Filipe R. Caetano/Advogado Criminalista/OAB/RS 105.244/Graduando em Filosofia pela Faculdade IDC/Membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RS/filiperibeirocaetano@gmail.com/Cel.: 99214-6142

 “Bandido” bom é bandido morto?

“Cidadão de bem” é o mesmo que comemora o sofrimento alheio?

Onde está o mal? O que é o mal?

Filipe CaetanoSegundo Leonidas Donskis, no livro em que escreveu com Zygmunt Bauman, o mal não está confinado às guerras ou às ideologias totalitárias.

Hoje ele se revela com mais frequência quando deixamos de reagir ao sofrimento de outra pessoa, quando nos recusamos a compreender os outros, quando somos insensíveis e evitamos o olhar ético silencioso.

Homicídios, estupros, roubos, furtos e tráfico de drogas, até pouco tempo atrás eram os crimes que o imaginário do senso comum utilizava para justificar e comemorar a prisão e o (des)tratamento bestial a que são submetidos os encarcerados nesse país, em cadeias que se parecem mais com masmorras medievais e campos de concentração do que com locais para ser cumprir prisão com efeito pedagógico-preventivo.

De algum tempo para cá, talvez cansados de ver o “pau que bate em Chico não bater em Francisco”, as prisões de políticos e empresários envolvidos (ou supostamente) em esquemas de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, dentre tantos outros crimes, muitas vezes relacionados a prática de crimes eleitorais e de licitações, e possivelmente também em razão da luta de classes que existe no país (embora há quem diga inexistir), a parte menos privilegiada da sociedade (esmagadora maioria) passou a regozijar-se a cada prisão de um milionário, e alardear satisfeita e risonha: “quem diria, hoje eu estou melhor na vida do que o Eike Batista hahah.”

A imprensa impulsiona o entretainment, através da comum e habitual espetacularização da investigação criminal e do processo penal, onde nada escapa às manchetes, às câmeras e aos jornalistas, ávidos por novas informações (esteja elas protegidas pelo segredo de justiça ou não) e mais sangue, mais carnificina, mais espetáculo para o povo, que atualmente precisa assistir as humilhações públicas de suspeitos e “criminosos”, tal como precisava o povo da Roma antiga assistir as batalhas no Coliseu

Conforme salienta Leonidas Donskis, vítimas são celebridades e celebridades são vítimas – destaco que as celebridades “criminosas” são o prato cheio para a imprensa, são a “gourmetização” da notícia criminal, a matéria criminal “artesanal”.  

Essa é a história de sucesso na modernidade líquida. Num mundo de consumo, o sofrimento também é consumido, tal como as vítimas e as histórias – tudo que seja intenso, que possa ser apaixonadamente vivenciado a uma distância segura ou por meio de uma relação de poder vigilante e amorosa.

Sem adentrar no mérito da (i)legalidade da prisão preventiva decretada contra Eike Batista e a presença ou não dos requisitos do artigo 312 do Código de Processo Penal, o fato que espanta é a insensibilidade ao sofrimento humano, quanto a fato relativo a privacidade e ao segredo de uma pessoa, tratando-se de coisa que nunca se deveria falar, que jamais poderia se tornar pública.

A prisão não é (não deveria ser) espetáculo para o orgasmo da sociedade insensível, que se delicia ao ver o homem que já foi um dos mais ricos do mundo, ter o cabelo raspado e ser preso com desconhecidos em uma cela de 15 metros quadrados, onde há um buraco no chão que serve como vaso sanitário e o chuveiro é um cano de água fria para o banho.

Não se comemora a prisão alheia, não importa quem seja preso. Humanos, demasiado humanos, como diria Nietzsche, quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você. A prisão, além de significar sofrimento mental em razão da privação de liberdade, em nosso país significa a submissão a condições inapropriadas e humilhantes que atentam contra a dignidade da pessoa humana.

O sociólogo Zygmunt Bauman lembra que a linguagem sádica e canibalesca encontrada principalmente na internet e que corre solta nas orgias verbais do ódio sem face, nas cloacas virtuais em que se defeca sobre os outros e nas demonstrações incomparáveis de insensibilidade humana, demonstra que a insensibilidade moral induzida e maquinada tende a se transformar numa compulsão ou numa ‘segunda natureza’, uma condição permanente e quase universal.

Muitas pessoas fundamentam o seu contentamento e satisfação com as prisões em razão de que se entendem como fazendo dos ditos “cidadãos de bem”, e que estão cansadas de serem “roubadas”. Com tamanho ódio, intolerância, e mais do que isso, conseguindo sentir prazer com a dor e o sofrimento alheio, que tipo de “bondade” é essa?

O jurista Agostinho Ramalho nos ensinou, questionando:

“Quem nos protege da bondade dos bons”?

 [1]BAUMAN, Zygmunt. DONSKIS, Leonidas. Cegueira Moral. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2014.

[2]BAUMAN, Zygmunt. DONSKIS, Leonidas. Cegueira Moral. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2014.

[3]BAUMAN, Zygmunt. DONSKIS, Leonidas. Cegueira Moral. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2014.

Tags: Bauman, Eike Batista, Mídia e espetáculo, online, Tapes

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