Transtorno bipolar é a sexta doença que mais causa incapacidade no mundo

Publicado por bira costa em 30/03/2017 às 09h57

Por Kimberlly Kappenberg/kimberlly.kappenberg@diariopopular.com.br/Diário Popular de Pelotas/Fotos: Internet e Drauzio Varela/divulgação

O transtorno de humor bipolar é uma doença complexa, que prejudica atividades cotidianas e a qualidade de vida

transtorno bipolarUma doença incompreendida. O Transtorno de Humor Bipolar (THB), muitas vezes abordado de forma caricata, é uma patologia complexa, que vai além das alterações de humor, podendo levar a problemas de relacionamento e até ao suicídio.

No 30 de março, instituído em 2014 como o Dia Mundial do Transtorno Bipolar, profissionais da saúde e pacientes buscam conscientizar a população e eliminar o estigma social sobre a doença.

A data foi escolhida por ser aniversário do pintor holandês Vincent van Gogh, diagnosticado postumamente como possível portador do transtorno.

O transtorno bipolar é a sexta doença que mais causa incapacidade no mundo e pode reduzir a expectativa de vida em nove anos. Conforme informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta 2% da população, é caracterizado por episódios em que o humor é levado a extremos.

Esta alteração varia desde uma profunda depressão até situações nas quais a pessoa se sente com muita energia e hiperexcitada (mania/hipomania).

"É uma vulnerabilidade biológica que causa oscilações no humor", conta o professor de Psicologia da Universidade Católica (UCPel), Luciano Souza.

Os principais sintomas da depressão bipolar são perda de energia, de apetite, de peso e de interesse por coisas que gostava, decréscimo no sono, pensamentos negativos recorrentes e dificuldade em concentrar-se. Os sintomas da mania ou hipomania são euforia, aumento no número de atividades, facilidade em se distrair, autoestima elevada, rapidez de pensamentos, tagarelice, diminuição do sono e mais engajamento em atividades que envolvam riscos.

"O uso de substâncias, isolamento social e brigas em relacionamentos estáveis podem ser sinais de alerta para estas oscilações", acrescenta o professor. A doença está associada a algumas alterações funcionais do cérebro, que possui áreas fundamentais para o processamento de emoções, motivações e recompensas.

No THB o sistema límbico, que controla o humor, nem sempre consegue responder adequadamente às mudanças ambientais ou percepções da pessoa, que fica instável. A hereditariedade é fator marcante no transtorno bipolar. O paciente nasce com transtorno e após eventos estressores apresenta oscilação de humor.

Pelotas acima da médiatranstornos


O Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comportamento da UCPel há dez anos desenvolve pesquisas sobre o tema. Um dos trabalhos, realizado com jovens pelotenses entre 18 e 24 anos, verificou que 7,5% preenchiam critérios para episódio de mania. "Encontramos uma prevalência muito maior do que o esperado para o indicativo de transtorno", alerta Souza.

O motivo, segundo o professor, seria o grupo de pesquisa, pois a maior incidência de bipolaridade é entre jovens adultos.

Na entrevista também não se questionou sobre alguns critérios diferenciais para o diagnóstico, como, por exemplo, se os sintomas seriam melhor explicados por outras condições.

Contudo, mesmo que não preencham os critérios diagnósticos para o transtorno bipolar "é uma sinalização que muitas pessoas de nossa cidade podem apresentar oscilações de humor que causam algum prejuízo em suas vidas", afirma.

Além disso, os estudos revelaram que adultos jovens apresentaram mais dificuldades em realizar atividades diárias relacionadas ao trabalho, lazer, relações sociais, cognição, autonomia e finanças, quando comparados a pessoas sem THB.

Jovens em episódio de mania/hipomania apresentam maiores taxas de ansiedade, abuso de drogas lícitas e ilícitas e risco de suicídio, o que leva parte dos pacientes a tirar a própria vida quando não recebe apoio e tratamento corretos, como no caso de Van Gogh, que morreu aos 37 anos.

"Como esperado, também foi encontrada maior desregulação nos padrões de sono", informa o professor, mas pela primeira vez se verificou que estes padrões seguem prejudicados mesmo quando os indivíduos com transtorno bipolar estão em períodos sem sintomas. Mais da metade dos entrevistados disse trocar o dia pela noite, assim como o pintor holandês, que fez do noturno parte essencial de sua obra.

Durante as pesquisas foi testado o tratamento de psicoeducação, cujo principal objetivo é fazer com que o indivíduo aprenda a reconhecer os seus sintomas iniciais para agir na regulação de seu humor. Verificou-se que a psicoeducação combinada com medicação foi mais efetiva na melhora dos sintomas depressivos, eficaz na regulação do sono e das atividades sociais, quando comparado ao tratamento somente com medicação. Para o professor, diagnóstico e tratamento precoce colaboram para redução de episódios ao longo da vida e diminuição da duração de cada um.

"A tristeza não tem fim"


As últimas palavras de Van Gogh definem a adolescência da estudante P.B., 27, que sofria com a depressão, mas só durante a gravidez descobriu ser portadora do transtorno bipolar, devido ao aumento de hormônios, que agravaram as crises.

Ela se dividia entre dias em que a vontade de viver não existia e se automutilava, com seus melhores momentos, em que a compulsão por compras era o problema. "É uma situação bem difícil", conta ela, que há seis anos faz uso de medicamentos para controlar a doença.

Nesse período ela se livrou dos cartões de crédito, seus maiores vilões no estado de hipomania. E quando a tristeza retorna nos dias de "fossa", como são por ela chamados, recorre à família e aos amigos, especialmente à mãe, seu maior apoio. P.B. está cursando o Ensino Superior e a faculdade é um grande motivador para que ela continue vivendo normalmente, sem se abater pelas oscilações de humor.

Contudo, poucas pessoas sabem da doença, pois ela não costuma comentar. "Em entrevistas de emprego, por exemplo, nunca digo", relata ela, que ainda acha que existe pouca compreensão sobre o transtorno bipolar. "Não dá pra lutar contra o que não se pode mudar", explica a estudante, que faz uma recomendação simples para quem está passando pela mesma situação: procurar ajuda e mediar a situação. Respeitando o THB e fazendo o tratamento correto é possível viver bem, finaliza ela.

Onde buscar ajuda
Pelotas possui oito Centros de Apoio Psicossocial (Caps), instituições destinadas a acolher os pacientes com transtornos mentais que têm como objetivo prestar atendimento em regime de atenção diária, criando projetos terapêuticos, oferecendo cuidado clínico, eficiente e personalizado. Este serviço acolhe pacientes com bipolaridade, esclarece a coordenadora da Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, Cynthia Yurgel.

A forma de ingresso é através de procura direta do serviço, encaminhamento feito por qualquer serviço de saúde. O Caps atende conforme o local de moradia do paciente. 

A medicação para controle do THB é fornecida pelas farmácias Estadual e Municipal, mediante cadastramento e preenchimento de formulários, de acordo com a necessidade. O lítio é uma das medicações frequentemente utilizadas e, dependendo da situação, pode ser associado a algum antidepressivo ou controladores de humor, o que também pode ser encontrado nas farmácias.

A UCPel, através do Serviço de Psicologia e do Ambulatório de Psiquiatria, oferece atendimento para pessoas com problemas de saúde mental no Campus da Saúde, mediante avaliação específica.

Momento de reflexão


Amanhã à noite a Universidade Católica realiza o seminário Atualizações em Saúde Mental: Transtorno Bipolar, que pretende mostrar a diversidade dos tipos de transtornos existentes e chamar a atenção para a importância de humanizar a doença.

Professores da UCPel, das universidade federais do Rio Grande do Sul (UFRGS), de Pelotas (UFPel), do Rio Grande (Furg) e profissionais atuantes na saúde pública serão os palestrantes convidados.

O seminário será dividido em dois blocos: o primeiro voltado para a definição e a identificação do THB, e o segundo para apresentação dos tipos de intervenções adequados ao tratamento da psicopatologia. O seminário se inicia às 18h, no auditório Dom Antônio Zattera, é aberto e gratuito, mas solicita-se a doação de um quilo de alimento não perecível. As inscrições podem ser feitas antecipadamente no saguão do Campus I ou na hora.

Atividades que ajudam a controlar a doença


- Estabelecer uma maneira de monitorar o humor, como um registro diário no qual são anotados irritabilidade, raiva ou euforia
- Manter um ciclo de sono regular, deitar-se no mesmo horário todas as noites e evitar dormir menos do que o habitual
- Prevenir as recaídas, reconhecendo o retorno dos sintomas
- Evitar o uso de álcool e de outras substâncias psicoativas, como a cafeína
- Não interromper atividades que eram interessantes ou que davam prazer
- Realizar regularmente atividades físicas
- Identificar ideias de autodestruição ou suicídio e procurar ajuda

(Fonte: OMS)

Tipos de Transtorno de Humor Bipolar
- Tipo I: se houve pelo menos um período de mania ou estado misto
- Tipo II: quando só aconteceram hipomanias - crises de euforia mais leves que mania
- Estado misto: caracteriza-se pela alternância num mesmo dia de sintomas depressivos e eufóricos importantes 
- Ciclotimia: durante anos, alterna sintomas de depressão e de euforia leves, que duram apenas alguns dias. Pode ser confundida com um jeito instável, de altos e baixos, e frequentemente antecede sintomas depressivos e eufóricos mais graves

*Se a depressão, a mania ou o estado misto estiverem acompanhados de alucinações ou delírios, trata-se do subtipo psicótico.

(Fonte: Abrata)

Em Pelotas
- 7,5% preenchiam critérios para episódio de mania 
- 5,3% preenchiam critérios para episódio de hipomania
- 40,7% relataram trocar o dia pela noite
- 66,7% sentem-se mais ativos à noite 
- 70,5% relataram ser menos produtivos pela manhã

As obras de Van Gogh refletem as suas oscilações de humor, características do Transtorno de Humor Bipolar. Algumas de suas crises duravam até quatro semanas.

- Quando começou a pintar usava uma paleta escura, com tons terrosos e sombrios. Após alguns anos, a coloração se tornou mais vívida.
- Na evolução de seus trabalhos, trocou o traço pontilhado por pequenas pinceladas.

* Em 1889, num ato de automutilação durante a depressão bipolar, cortou sua orelha esquerda.
* Suas últimas palavras foram: "A tristeza não tem fim".

Categoria: Saúde
Tags: online, Saúde Pública, Tapes, Transtorno bipolar, UFPEL

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