Surpresas do cotidiano carioca por Lucas Brito de Barros

Por Lucas Brito de Barros (Jornalista/ Registrado no Ministério do Trabalho/ DRT 17.454)

Foto: Internet/Trip

Lucas Brito

 

O dinheiro não vale mais nada ou o salário que recebemos é muito pouco em relação à alta carga tributaria, que reflete diretamente na qualidade de vida do trabalhador?

Basta conversar um pouco com qualquer pessoa na rua que, geralmente, o discurso gira em torno da dificuldade enfrentada por quem sente na pele os efeitos de um país em “crise”. (… mais moral do que financeira, pois dinheiro há).

Na última sexta-feira (7 de abril), encontrei uma senhora que trabalhou 50 anos como professora e, hoje, aposentada pelo Estado do Rio de Janeiro, está frustrada.

Ela, como muitos outros funcionários públicos, que passaram no banco para receber, ficaram de mãos vazias. Além de receber fracionado seu salário, a data para o dinheiro cair na conta é improvável.

A conversa espontânea de quem desabafava com um estranho não parou por aí: com um semblante cansado, a professora aposentada afirmou que estava escondendo da filha a sua falta de dinheiro.

“Minha filha me liga e pergunta se estou precisando de algo, sempre digo que não, mas não está fácil.

Hoje ganhei um dinheirinho como explicadora e deu para comprar essas coisinhas no mercado. Estou muito chateada com tudo o que estamos passando aqui no Estado. Pezão e Cabral roubaram muito. E o que é pior, eu já tive uma experiência parecida na época do Governo Collor, quando fiquei nove meses sem receber”, desabafou sem se identificar.

Outra professora com quem conversei– já do campo da Filosofia – também aposentada, para enfrentar a crise, por sua vez, resolveu trabalhar como caixa do supermercado Walmart, de segunda a segunda, com uma folga na semana. E, como diria o professor Raimundo, personagem interpretado por Chico Anísio, “o salário óh!”.

Além da falta de “planejamento” dos governantes, outro ponto que também está na roda das conversas na metrópole carioca é a “corrupção”, que, segundo a Receita Federal, é um dos motivos, que junto à sonegação, eleva a alíquota das contribuições tributárias. Ambas questões estão diretamente atreladas ao nosso cotidiano. Não podemos falar que apenas os políticos e empresários são os culpados. Cabe a cada um de nós verificar o que é possível fazer em prol da mudança ou das mudanças que nosso país precisa. Afinal, corrupto também é quem sonega imposto de renda, por exemplo, ou oferece o típico “cafezinho” ao policial na estrada...

Os problemas sociais só mudam de endereço e de proporção, mas em todos os cantos do mundo eles estão presentes. Segurança, saúde, educação, entre tantos outros temas que podem ser discutidos, porém, muito pouco adianta teorizar algo que precisa ser praticado no dia a dia: respeito, solidariedade, empatia, responsabilidade, compromisso.

Paralelo a tudo isso, existem as nossas experiências pessoais as quais nos levam de uma forma muito particular a perceber o mundo que nos rodeia. Lembro de quando eu fui morar em São Leopoldo, para estudar na Unisinos, o choque de realidade já foi bem grande, ao menos pra mim. Moradores de rua, assalto, prostituição, acidentes, drogas.

A proporção era bem maior, no entanto o trem até a capital gaúcha custava menos de dois reais e várias linhas e empresas de ônibus operavam dentro da cidade. Já em Canela, apenas a Citral fazia – e ainda faz – o transporte público intermunicipal. E, depois de alguns anos, eis que me encontro em uma cidade com aproximadamente seis milhões de habitantes. Nasci em um município de 60 mil, fui estudar em outro de 200 mil, e nessa pequena distância (100 km) já foi possível uma pequena metamorfose cultural.

Quem dirá no Rio de Janeiro, com milhões de pessoas! Esta cidade não para nunca!

Muitas pessoas na rua “pedindo ajuda” e os discursos são diversos:

– Moço me ajuda a comprar algo pra comer;

– Estou desempregado e preciso comprar uma lata de leite em pó para meu filho;

– Senhor, preciso de dinheiro para completar minha passagem, sou ex-presidiário e não consigo arrumar emprego, quero tentar viver uma vida certa.

Muitas pessoas na rua “dormindo”: homens e mulheres deitados nas calçadas são encontrados em qualquer região do Rio de Janeiro. Como se fosse um mundo a parte. Habitantes de outro planeta.

Alguns parecem zumbis. Enquanto vivemos em “horário comercial”, eles, os moradores de rua, vivem em um mundo paralelo. Enquanto nós descansamos, eles estão em uma rotina de drogadição, prostituição, mendigam e catam lixo; e, para piorar, os dependentes químicos, chamados de cracudos, assaltam as pessoas que passam próximo ao local em que eles estão, “cracolandia”.

No transporte público ou nas calçadas, também existe o comércio informal, que para alguns é considerado “emprego temporário” ou a principal renda:

– Com sua licença, senhoras e senhores, desculpa atrapalhar o silêncio de sua viagem. O “camelô” traz balas, doces, salgados, bebidas, fones de ouvido, pilha, capinha de celular, capinha para documento, café quentinho… queijo polenguinho…

Cada dia é uma surpresa diferente.

E assim segue a rotina de um jornalista gaúcho que está morando na metrópole carioca. Só muda o endereço e a proporção, mas os problemas são os mesmos. Afinal, estamos em um mesmo Brasil, sofrendo com a mesma crise. E eis que continuo dizendo: o ônus e o bônus de viver em uma grande metrópole são inevitáveis.

Categoria: Lucas Brito de Barros
Tags: online, Rio de Janeiro, Sociedade, Tapes, Vida Carioca

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